viernes, 18 de noviembre de 2011

Sem sal e açucar

Vazios os dois potes de biscoitos. No de sal algum farelo. Depois da crise mais violente fica mais a vontade, as palavras se espancam dentro da cabeça. – Vai se acostumando. Conselho da mãe. – Outros sofreram antes de você, seu pai chorava a noite até dormir com uma garrafa enrolada no lençol. Desconfiado. Encontro com coisas guardadas em lugares que não esperava. rancor recolhido cultivado dentro da cabeça estúpida. Dois potes vazios, nem sal, nem açúcar para aplacar o gosto amargo.

Rodamoinho

Tudo começou como num redemoinho. Reviravam a casa, a coisa perdida era algo ainda abstrato, mas imprescindível. Saberiam quando a encontrassem. Somente a sensação de irreparável perda. Perguntas oscilavam em lembranças e mergulhos no cerne da questão. Buscas incontáveis na casa toda. Veio à noite e as sombras escondiam mais, o lugar revelou possuir inúmeros segredos, cantos esquecidos ganhavam outros interesses. As vigílias revezaram-se até de manhã. Café tomado às pressas, levou mais um dia nas buscas, olhos cansados de levar e trazer coisas, por fim, vacilantes tomavam coisas já vistas como se fosse a perdida, apaziguados foram se acomodando novamente pelo esquecimento.

Malaca vai pro inferno


- Malaquias! O pastor chamou lá na frente, para dar seu testemunho. A mulher contente e a sogra sorrindo. Ele chorou. Depois no bar em frente ao cais os amigos de pesca fisgaram na conversa sua confissão. – Sou um homem novo, estou feliz pra caralho. Em casa a mulher apresentou a menina da comunidade que ia ajudar nas tarefas domésticas, Malaquias escondendo o riso cheio de buracos. Tudo caminhava na santa paz até que chegou em casa e encontrou a menina sozinha esfregando cera no chão, ficou urubu na sala olhando ela de cócoras inocente, ele coçando entre os dedos do pé ruço de cimento pediu com voz macia: - Filhinha podia faz favor, tirar um bicho que estava no dedão. Ele com a agulha na mão, mostrando o lugar. A menina tremia só de ver as varizes da perna, veias grossas, calcanhar rachado, bolhas pretas, chulé subterrâneo. No dedão o olho, ele de cima e o peitinho solto na blusa com o bico feito bicho de pé ovado cabeça que só uma verruga olhando caolho. Malaquias ruminou na sua cabeça calva. - Deus perdoa a cachaça, mas e a santinha com peitinhos em flor? Agarrou sem escolher, a menina gritou e correu. Na igreja a mulher e a sogra chorando de joelhos. Nem sombra do Malaquias.

Rei do Congo

Rua Taraumaras, um negrão empinando as cadeiras de rei do Congo. Uma vela faz luzir a garrafa no meio da rua. Dentes que as luzes não pouparam. – Prezado fique com minha gravata que o pescoço é para a navalha. A velha vestida de luto. Ele emborcado dentro do prato com farofa do despacho desfeito.

Alice

A vida para Alice era a mesma brincadeira de quando criança, quando alguma coisa ficava mais complicada ela chorava. Seu choro comovia, impressionava a veracidade melada daquelas lágrimas que vinham como um colírio para os olhos em chamas. As mãos contorciam, tapavam o rosto como uma mascara deixando os dois olhões brilhando entre os dedos.

Bons tratos

Ferrou um berro dentro do ouvido, zumbindo, enfezou e espalmou falanges na cara do outro. Pesca com a cabeça e retorna revidando, mas acontece a estocada. O ferro com a ponta machucando as tripas. Emborca e cai. Já dentro do camburão o pau rolava. Cascudo e cachuleta. Na delegacia o empinaram num pau de arara. Solaram os pés com uma palmatória de lata. Sarado dos maus tratos dentro da cela os outros não deram descanso, um afeminado revelou. – Aqui Serginho é assim, quem não come leva. Não teve chance, caíram em cima dele. Com o tempo acostumou, fazia como pediam. Revelou-se um profissional. Saiu e aprendeu com quem deveria ir, o corpo modelado no silicone. Conheceu um cara e montou apartamento, deu tudo, não pode evitar apaixonar-se, juntou dinheiro e fez cirurgia, hoje moram em Petrópolis e estão pensando em adotar um menino.

Melissa

O cabeça de Negro ta de olho na Melissa do Matraca, dizem que estão enganando o besta, fazendo dupla cruzada que só em parede de cemitério. Ontem mesmo os dois se estranharam na disputa pelo tri-campeonato no Bola Preta. Na hora do vira houve um mal entendido que só não furavam um ao outro porque os do deixa disso não deram folga. Aquela deixa de enfiar pelo avesso a historia era injuria. Matraca vai de chinelo e não vê a hora de tirar da lembrança esta historia de desapego e traição.

Erich

Quando foge Erich afunda o focinho no meio do lixo, nas porcarias e sobras de todas as famílias da rua, e volta glorioso, sujo de pó de café e restos de comida. As duas meninas lavam suas manchas negras de pelo sedoso. Sua casinha de papelão não resistiu a chuva, acomodou-se na varanda do lado da máquina de lavar. Desde que as duas ganharam um videogame que ele vive só no quintal, brinca com o cãozinho de borracha, rói seu osso de baleia.

Entrou um dia na casa por descuido de uma porta aberta, as duas na sala com os olhos na TV, de repente cai a energia, sua chance. Pulam no sofá, eles se divertem brincadeiras, saudades, mas, logo a luz retorna, ele se afasta e as duas o ignoram. Pulou da janela para a rua e nunca mais voltou, só ficou o cãozinho de borracha mordido no quintal.

Unhas e dentes

Enjôo forte em frente ao almoxarifado, outro trago no cigarro. – Deus me livre envergonhar meu pai. Entre as coisas que mais prezo, está ele no seu terno preto, dentro do caixão enfeitado de cravos. Um homem com uma morte honesta, até que lhe desenterrem os podres, mas aí, sua caveira já vai estar branca, imaculada. Esperando o ônibus para o Coroado ele notou suas unhas grandes e sujas mordendo o couro da Bíblia.

Bocas

Pensou que teria boa vida com o Ademir. Errou de homem e de sexo, queria ter nascido homem, aí, mostraria a todos uma coisa. Faz o gesto obsceno com a mão. – Alaíde, você se mata neste fogão de quatro bocas. Em casa tenho seis bocas para alimentar. Saia e blusinha, louca por um shortinho de lycra.

Baton debutante

Encontrava a saída perambulando atrás dos meninos. Enfrentou e obedeceu aos instintos. As mãos de uma mulher, que estragos fizeram. A conversa, palavras ditas com cuidado, até que um tapa... Vergonha, todos na família já sabem. Por essas horas estão reunidos discutindo seu destino. O velho arrependido. – Para quem foi entregar a filha. Depois de criada. Deu o primeiro beijo, queria na boca o batom da debutante.

Sétimo céu

Entre o sétimo e o oitavo andar, entre ele e o decote, um palmo, um segundo de elástico esticado com os bicos deformando a blusa.

Prega rainha

Quem será esta que pulsa nas palavras. Quebra a privacidade para se revelar. Enfim uma personagem grata pela felicidade de ser ficção. O lugar vai ser uma casa pequena para que não percamos tempo descrevendo detalhes. O quintal cheio de esconderijos, carambolas e limão galego, frangos de granja sujos de terra. A porta da rua num azul descascado.

A primeira filha nasceu anã, encorpou, mas não ganhou altura. Predestinada, vai ser a empregadinha solteira da mãe, as irmãs cresciam e as roupas iam ficando para ela. Acabava vestida como uma boneca na missa de domingo.

A caçula era carinhosa, mas Otília gostava de ser cruel com a anãzinha, orgulhava-se do mal feito. Quando engravidou, os pais casaram-na com um homem mais velho longe de casa. A caçula fez quinze anos, eram íntimas contou para a irmã sua primeira vez com um garoto, ouviu tudo com a ponta da língua entrando e saindo da boca pequena. Esperou a irmã sair e contou tudo a mãe. O pai a expulsou de casa, mais uma filha perdida, pobre seu Eloi. No dia que a caçula foi embora a anã ficou da janela escondendo o sorrisinho duende com o pano da cortina.

Goiabas

-Gosto de goiaba e só não trepo porque estou menstruada.

Um humor da porra, elas encontravam com os dois, na boca. Dentes que soavam brancos chutavam papel. Entregues. Confidentes de alma segura. pegam nas mãos e sentem que vai ser difícil convence-las, os quatro vão a feira de eletrodomésticos.